A Revolução Francesa expôs ao mundo a força agressiva de um movimento social: os Sans Culottes. Era uma classe intermediária que reforçou os primeiros embates de um acontecimento que se espalhou pelo mundo. Relembrando aqueles feitos, notei que em minha rua, no meu bairro, na minha cidade também há um movimento permanente, uma classe intermediária que trava um duelo incessante contra o sistema. Na época eu escrevi Suburbanos, uma inspiração brasileira daqueles contestadores.
Nos últimos dias, novamente a França sente a força de um choque
nas ruas da classe agrícola em busca de seus ideais; neste contexto, reeditei a
antiga postagem e os convido a rever essa aventura.
É madrugada, o sol ainda não despontou; uma multidão toma as ruas. Vão os atrasados, os boias-frias, os peões de obras, os estudantes. É uma luta contra o relógio, contra a falta de recursos; o sapato quase rasgando, roupa fora de moda...é o melhor que eles têm. No fundo, sabem que vai chegar o dia em que tudo dará certo; vai ser como um tiro certeiro...na mosca! Será como tirar a sorte grande, um gol aos quarenta e seis minutos...na gaveta!
A maioria segue seu caminho, a eterna rotina que se estende por longos anos. Como são muitos, agrupam-se e juntos sobrevivem às devassas; agremiados, criam sua própria gíria e seu dialeto é forjado em palavrões, gestos obscenos. Baseiam-se na força e subjugam o lado sensível, temerosos de serem difamados ou menosprezados. Externam as suas emoções em trajes provocantes, usam tatuagens, estampas exóticas em manifesto ou em protesto contra uma causa que nem eles próprios sabem definir. Conhecem o submundo, os vícios, as drogas; sabem da dor e da solidão. Escravos do sistema, envolvem É madrugada, o sol ainda não despontou; uma multidão toma as ruas. Vão os atrasados, os boias-frias, os peões de obras, os estudantes. É uma luta contra o relógio, contra a falta de recursos; o sapato quase rasgando, roupa fora de moda...é o melhor que eles têm. No fundo, sabem que vai chegar o dia em que tudo dará certo; vai ser como um tiro certeiro...na mosca! Será como tirar a sorte grande, um gol aos quarenta e seis minutos...na gaveta!
A maioria segue seu caminho, a eterna rotina que se estende por longos anos. Como são muitos, agrupam-se e juntos sobrevivem às devassas; agremiados, criam sua própria gíria e seu dialeto é forjado em palavrões, gestos obscenos. Baseiam-se na força e subjugam o lado sensível, temerosos de serem difamados ou menosprezados. Externam as suas emoções em trajes provocantes, usam tatuagens, estampas exóticas em manifesto ou em protesto contra uma causa que nem eles próprios sabem definir. Conhecem o submundo, os vícios, as drogas; sabem da dor e da solidão. Escravos do sistema, envolvem-se com qualquer propaganda. Falam alto, são exagerados, admiram Stallone, Van Damme, fixando-se nos mitos que fazem tudo aquilo que são incapazes de fazer! Mesmo sendo obra fictícia, deixa-os extasiados porque os “caras são demais, arrebentam”! Criativos, fazem a própria moda, um esforço desesperado para aparecer na esperança de não ser mais um na multidão. “Curtem” o que é soft, “transam” tudo o que é “diet”, gostam de samba, do pagode e de tudo o que é divertido, lascivo e provocante. Divertem-se com os deboches, gostam do “rala coxas’. Destemidos, são guerrilheiros que doam seu sangue por tão pouco. Constituem a maioria nas festas, nas filas, nos hospitais. É a massa que alimenta o comércio, as indústrias; é a mão forte que mexe o concreto, que trabalha a terra e a faz produzir. São os alicerces da sociedade, aptos para o trabalho pesado, onde a tecnologia se faz improdutiva. Crescem desordenados, com dentes cariados, sorriso tímido, envolvido de malícia, porque os homens só se fazem sinceros, quando se veem acuados; se a vida não lhes confiou fortunas, os “macetes” para a sobrevivência eles os têm desde a infância.
O horóscopo do dia afirma
que haverá surpresas; que alguns passam pelo inferno zodiacal. Outros estão na
fase dos grandes amores, e há aqueles que se sentem no paraíso astral. Jornais
e revistas reservam espaço em suas publicações, trazendo presságios para todos,
despertando a situação ambígua que influencia as pessoas, as ideologias, os
grandes “lances”, o mundo empírico de cada um, que os leva a uma busca
constante de sua real personalidade. Que Paraíso seria esse se há tantas coisas
grotescas acontecendo?...Também não é Inferno, pois têm momentos inesquecíveis
e, por serem humildes, desconhecem suas forças e o que poderiam fazer por seus
mundos.
Nesse paradoxo, passam pela vida, repetindo “chavões” e “bordões” inexpressivos. Possuem, no entanto, uma certeza: logo chegará o dia em que não será necessário conquistar as coisas no “grito”; será como tirar a “sorte grande”, uma grande “tacada”, uma flecha certeira...na mosca!...ou como uma bola metida no ângulo aos quarenta e tantos minutos... Indefensável!...então, é só esperar.
Imagem -Título: Transporte_ na_ pandemia_36_IraRomão-1024X683.jpg. Ira Romão/Agência Mural. Acessada em 10.01.2026.
Postado no Jornal A Notícia (Salesópolis) 07/1997.
