sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Parabéns Salesópolis.

spglobal.com.br
São 177 anos de um progresso lento e cheio de solavancos. Devido a sua localização geográfica, Salesópolis sofre com as dificuldades na busca por sua independência econômica. Apesar de ser uma Estância Turística e basicamente estruturada na monocultura do eucalipto, nos produtos hortifrutigranjeiros e na prestação de serviços, seus cidadãos vivem no limite entre a criatividade e o improviso para acompanharem as mudanças do mercado. Mas nem tudo é tristeza. Apesar das dificuldades típicas da região, eles têm em mãos uma grande reserva de floresta renovável e uma considerável disposição para explorá-la. Se surgem imprevistos, eles partem em busca de novos rumos. São guerreiros que despertam antes do amanhecer e não fogem da luta. Além disso, são ambiciosos, comedidos (apelidam a todos que encontram), saudosistas, religiosos – provavelmente é uma das cidades que mais contribuíram com a formação de padres para o catolicismo-, sonhadores, barulhentos, festeiros e, ao mesmo tempo, acolhedores, solidários e amigos.
Qual seria a melhor data para comemorar o aniversário da cidade? A história afirma que o seu reconhecimento se deu no dia 28 de fevereiro de 1838; porém, seus limites geográficos foram pré-demarcados na data em que ela se tornou Capela Curada, em 25 de outubro de 1831; se fosse considerado a data de formação da primeira comunidade, então seria em 25 de fevereiro de 1813; mas a sua emancipação política só se deu com a primeira composição Camarista da Vila formada em 02 de dezembro de 1857.

 E então: qual data mais se aproxima da realidade desse povo?...Agora. Esse é o momento. Então, parabéns!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

São Jozé do Parahytinga: duzentos e dois anos de história.

Tamoios - google
A região alta dos rios Paraitinga, Tietê e Claro, quando se tornou conhecida dos colonizadores, era cortada por trilhas milenares traçadas pelos nativos. A principal delas interligava a atual cidade de São Paulo -via Ubatuba- ao Rio de Janeiro. Era Rota dos Guaianazes conforme descrição feita num relato no site de Paraibuna. *“O antigo caminho dos Guaianases, que ligava o Rio de Janeiro a São Paulo, unindo as tribos de serra acima às do litoral. Saindo de São Paulo de Piratininga, subindo o rio Tietê, passando pela freguesia da Penha de França, São Miguel, Mogi das Cruzes, atingia suas nascentes, descia-se passando-se pelo bairro do Roseira, seguindo a corrente do rio Fartura, passava por sobre a sua foz desaguando no Rio Paraibuna, seguia em direção à Natividade da Serra, em direção à Ubatuba e seguia-se acompanhando o litoral até Paraty e Cabo Frio, Angra dos Reis, deste ponto até o Rio de Janeiro, a antiga aldeia de Uruçumirim”
Padre Anchieta- Google.
No século XVI, os jesuítas da Companhia de Jesus travaram os primeiros contatos junto ao litoral e, por conseguinte, com os planaltos que se estendiam além serra. O próprio site afirma que _*(Pelas margens do rio Paraibuna passou o próprio padre José de Anchieta, que aquí esteve no ano de 1561 na esperança de apaziguar os índios Tamuya (Tamoio) que levavam perigo constante aos fazendeiros de São Paulo de Piratininga). Em Salesópolis, por exemplo, ela despontava da cabeceira do Paraitinga, guinava para a margem esquerda do Tietê e nela permanecia.
Com o extermínio dos Tamoios permaneceu o caminho que interligava os vales do Tietê e do Paraíba. A partir de 1611, quando André de Leão partiu com sua Bandeira desbravando, reconhecendo e povoando todo o vale, estava lançada a busca pela colonização da região leste. A cada núcleo assentado novos caminhos se dirigiam em busca da antiga rota que estava consolidada até o litoral.
Entre os achados, o ouro foi o grande atrativo comercial. Por ser uma cobiçada moeda comercial, muitos aventureiros para cá vieram e, com eles, os piratas, exploradores que depredavam as riquezas naturais.    
Visando um maior controle da exploração econômica, Portugal mudou a capital da Província que era sediada na Bahia, para o Rio de Janeiro. Incentivou, através de decreto, a colonização dos acessos ao litoral o que fortaleceu o contato entre os “sesmeiros” da região leste de São Paulo de Piratininga.
Desde meados do século XVIII que os jegues haviam sido inseridos nos transportes, a velha Rota dos Guaianazes e seus inúmeros acessos, com o passar do tempo, foi demarcada em pontos de descanso em trechos compreendidos entre vinte e trinta mil metros. Um desses pontos, improvisado há uma légua do tradicional pouso, em função do entroncamento com outras trilhas que vinham do Vale, prosperou.
Igreja - Foto Faria
O ponto de encontro, na verdade, foi um acontecimento normal do aumento populacional. Vinda do Alto Paraíba, a trilha milenar cruzava com o bebedouro, que hoje é denominado córrego do Padre Manoel, seguia em direção ao Rio Tietê. Por ser um caminho de nômades, buscava sempre as várgeas e, naquela altura, recebia os novos viajantes dos assentamentos em formação.
Em 1808, a vinda da Família real para o Brasil, D.João VI criou leis que possibilitavam o comércio e aumentou a tributação para o Império. Com a presença de portugueses, a prática religiosa não ficou a margem. Assim, nessa pousada, em 25 de fevereiro de 1813, a Cúria Metropolitana determinou a criação de uma pequena Comunidade, consagrada a São Jozé, ao lado do Rio Paraytinga. (Igreja localizada no centro da antiga sede)

Bantos - Google
Em 1831, dezoito anos após a sua fundação, a capela passou a categoria de Curada. Utilizando o critério de divisor de águas, delimitava as suas divisas.
Em 1832, o padre Manuel de Faria Dória inaugurou uma picada que cortava caminho interligando o Vale do Paraíba direto ao Porto de São Sebastião. A comunidade elevou-se a Freguesia pela Lei n.º 17, da Província de São Paulo, no dia 28 de fevereiro de 1838.
Em 21 de março do mesmo ano, visando à construção de uma capela, em homenagem ao padroeiro, foi feita por Antonio Martins de Macedo (Aranha) ao cidadão Domingos Freire de Almeida e outros a doação de uma área onde se localiza, nos dias de hoje, a Praça Pe. João Menendes até o Posto de Saúde.
A 14 de abril de 1838, os alferes José Luís de Carvalho e Francisco Gonçalves de Mello, o capitão Alecho de Miranda e o Sr. Domingos Freire de Almeida compraram, do mesmo Antônio Aranha e herdeiros, uma área correspondente a oito quarteirões (região que compreende o terreno dos Carmonas, Margem do Rio Paraitinga e Vila Henrique).
 Em 09 de março de 1839, o Padre Manuel de Faria Dória assentou a pedra fundamental da nova igreja matriz (dentro da propriedade coletiva). Ainda em 1839, escravos, enquanto debulhavam milho, assassinaram o senhor escravagista Alferes José Luiz de Carvalho.
Através de escritura pública de 06 de agosto de 1841- livro n.º 27- fls.47 a 48, Francisco Gonçalves de Mello, Alecho de Miranda, Domingos Freire de Almeida e Floriana Rodrigues de Jesus, doaram a antiga propriedade do Aranha para a servidão pública. Devido ao caráter social dessa atitude, são considerados benfeitores do povoado de São Jozé do Parahytinga.
A facção Liberal liderava o Ministério do 2º Reinado, mas foi substituída, em 1841, por um grupo Conservador. Os Liberais, derrotados sob a acusação de fraude eleitoral se revoltam. Como resposta, preocupado com o avanço das guerrilhas que cresciam no sul e sudeste do país, o Imperador determinou vigilância nos acessos ao mar. Com isso, a Freguesia de São José do Paraytinga passou a ser um Distrito Policial, com a interdição da Picada Dória, em 1842.
Com estreita relação com o próspero Vale do Paraíba, São Jozé foi se adaptando às novas necessidades. O avanço político mostra a Lei Provincial n.º 9, de março de 1857 da Assembléia Legislativa Provincial eleva, para a categoria de Vila, a Freguesia de São José do Paraytinga e obriga os seus habitantes a construírem a sua Casa de Leis. A primeira composição Camarista da Vila foi formada em 02 de dezembro de 1857.
Em 1866, fazendo valer a sua autoridade, a Câmara Municipal elaborou um documento que regulamentava, em caráter, oficial as divisas do município.
Bento Claro. Foto Faria.
O café é a força econômica paulista e São Jozé do Parahytinga um forte coadjuvante. Em 1870, com a inauguração da estação ferroviária na atual Guararema, abriram-se novas perspectivas. Segundo as narrativas de velhos tropeiros, a caminhada até Mogi os obrigava a pernoitarem para atingirem o comércio de Mogi das Cruzes; com a abertura da estação as margens do Paraíba esse trajeto era feito em um dia. Esse itinerário permaneceu até meados do século XX. Com essa conquista, ricos proprietários avançaram pelo alto Tietê e arredores.
Campos Vergueiro. Divulgação
Em 1874, a população duplicava, pulando de 1.935 para 4.103 habitantes. Um documento distribuído pela Igreja católica mostra que, só neste ano um pároco - Bento Claro - passou a residir na vila.
Em 13 de maio de 1888, a escravidão foi extinta. A falta de mão de obra levou os senadores a buscarem alternativas. Então, em 1889, baseado numa experiência do senador Nicolau de Campos Vergueiro, aprovaram a Lei das Parcerias, o que possibilitou a vinda de imigrantes para trabalharem como colonos em regime de meeiro. Cumprindo a exigência de terem profissão definida, pousaram em São Jozé do Parahytinga e adjacências pessoas das mais diversas atividades. Vieram os grandes artesãos da culinária (queijos, massas, bolos, carnes), da madeira (linha, vigas, caibros, tábuas, esquadrias, acabamentos, carros de bois, charretes, portas e janelas colônias), da cerâmica (tijolos, pisos artísticos). Este núcleo estava em franca ampliação pelo território, formando a pequena classe média. Fundaram-se escolas em que os professores ensinavam gratuitamente. Como prova dessa conquista, temos a professora Henriqueta Pereira que, em 1886, dava início, aqui, as suas atividades.
Mestra Henriqueta. A.E
Campos Sales. Google.
Mais uma vez a força do Vale do Paraíba volta apesar nas decisões políticas e, através da Lei Estadual n.º 470, de 20 de dezembro de 1896, o município passa a pertencer à Comarca de Santa Branca. Na sessão da Câmara Municipal da Vila, do dia 08 de junho de 1900, os edis solicitaram ao Governo Estadual a alteração do nome do município de São Jozé do Parahytinga. Segundo a justificativa dos legisladores, o desvio de correspondência entre São Jozé do Paraytinga e de São Luiz do Paraytinga causava transtornos. Assim, os Joseenses do Paraitinga desejaram homenagear Manuel Ferraz de Campos Sales, o que ocorreu, oficialmente, em 16 de novembro de 1905. Para a nova denominação, o município buscou inspiração na Grécia. Salesópolis significa “Cidade de Sales”.

Dados estatísticos conforme pesquisas de André R. da Silva, Google,
Graciete Miranda de Souza, Geraldo C.dos Santos, Revista
Salesópolis , jornal A Caminho, Foto Faria. *www.paraibuna.sp.gov.br/ história


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Uma família e duas guerras.

João Nunes dos Passos.  A. Familiar

Para atuar na Revolução Constitucionalista de 1932, o jovem João Nunes dos Passos foi convocado. Nos meses seguintes, atendendo às ordens militares, cumpriu todas as tarefas que lhes foram ordenadas. Após a derrota dos paulistas frente às tropas federais, embora traumatizado por tantos riscos, foi retornando, aos poucos, à sua vida de camponês. Das tantas agitações, nada sobrou; motivo: devido a sua extrema humildade, ele não sabia que fazia jus a documentos que comprovassem a sua estada no Exército; e a falta desses papéis impediu o seu acesso a uma remuneração vitalícia pelo feito.
Abílio Nunes dos Passos. F.F
Já na Segunda Guerra Mundial, um de seus irmãos também fora convocado: Abílio Nunes dos Passos. Como de praxe, foi obrigado a cumprir todas as exigências militares, fez os treinamentos no Brasil, mas, por um desencontro nos dias que antecederam ao embarque para a Europa, ele seguiu e permaneceu em outra Companhia. Uma vez na Itália enfrentou os alemães e foi o único salesopolense a tombar no Monte Castelo. Segundo o saudoso pracinha Pedro Flóes de Oliveira, “a FEB lutou na véspera da conquista do Monte Castelo e, com outros combatentes, tiveram grande importância ao dominarem pontos estratégicos que levaram a derrota daquele Forte Alemão. Mas, como consequência, houve um número grande de baixas entre eles; por isso, no dia seguinte, foram orientados a permanecerem em prontidão, mas em segurança”. 
Naquele que foi o dia da vitória - esperada por meses - a exatos setenta anos (21.02.1945), dos vinte salesopolenses em Campanha, só o soldado Abílio combatia e acabou assinando com seu sangue aquele sucesso. Após o triunfo, seus restos mortais permaneceram no cemitério de Pistóia até serem trazidos para o Brasil.
João Nunes dos Passos. C.V
Cemitério de Pistóia. Google.
  Seu João, sobrevivendo somente com a pensão da Previdência Social e o apoio dos amigos e familiares - ele só lembrava de que seu número era 1077-, encerrou os seus dias, em sua casinha nas montanhas.
À família enlutada cabe a sensação de dever cumprido, e as nossas eternas condolências!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Marcas do passado.

Durante esse tempo em que o Reservatório de Ponte Nova se encontra quase vazio, despontaram imagens de um passado não tão distante que, por um breve espaço de tempo, pode ser vista no trecho compreendido entre o aterrado e o açude. A falta de água pôs a mostra as curvas esguias do rio e seu aspecto físico que estava oculto. Apesar de toda a sua extensão e de receber veranistas de diferentes culturas, suas margens não se encontram sujas. É rara a presença de resíduos humanos em ambos os lados. Dentre as novidades, algumas delas chamam a atenção. Lá no "Toboganzinho", há uma antiga ponte de concreto, feita, possivelmente, no início do século passado  durante a reforma da estrada que servia a comunidade ribeirinha do Tietê até a Cachoeira dos Freires, onde foi construída a primeira hidrelétrica da região. Na mesma várzea, junto de uma outra  antiga ponte, acha-se um caiaque danificado. Entre as curiosidades à mostra, uma merece maior destaque: a carcaça de um veículo abandonada, logo abaixo do aterrado, na margem do rio.

No geral, se considerarmos a grande extensão territorial compreendida entre Usina e o paredão, no Distrito dos Remédios, e o grande número de visitantes que frequentaram e frequentam  esses pontos turísticos,  podemos considerar que sua orla está preservada. 

Diz a lenda “que o mar devolve seus mortos”; pelo visto, os rios... também!   

A ponte, o caiaque e a carcaça de veículo; destaques entre os resíduos.

Fotos: Ciro do Valle. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

S.O.S Ponte Nova!

Para onde foram todas as chuvas?
Essa é uma pergunta que venho fazendo há algum tempo. No ano 2000, ocorreu uma estiagem parecida, mas menos intensa. Entre um dia e outro, havia alguma neblina e, a partir de novembro, a chuva voltou e a situação foi contornada. Por isso, no dia 11 de janeiro p.p., visitei a Represa de Ponte Nova, ou ao que resta dela.
Origem.
“Em 1963, o governador Adhemar de Barros, visando à solução das enchentes da Capital, iniciou estudos para a implantação de diversas barragens nas cabeceiras do Alto Tietê. Uma das primeiras obras seria a de uma barragem no próprio rio Tietê e que, segundo os estudos, o local escolhido foi na altura da ponte o mesmo rio, na estrada Mogi-Salesópolis. Essa ponte, recém-construída, deu origem ao nome da barragem, passando, então, a chamar-se: Barragem de Ponte Nova” Francisco Wuo – Jornal Nascente. 1981.
Todo o investimento inicial desse projeto visava o combate às enchentes e o abastecimento permanecia só na captação do Rio Claro, inaugurada em meados dos anos vinte, do século passado.
Cinco décadas se passaram e a meta foi alterada. Desde que Salesópolis passou a integrar a Grande São Paulo e a fazer parte da área de proteção de mananciais, todas as suas vertentes passaram a ser protegidas e direcionadas ao abastecimento da grande metrópole. Nos últimos vinte anos, a necessidade de se obter água potável, como era de se esperar, agravou.
Nos anos seguintes, a interligação das barragens de Ponte Nova -Rio Biritiba-Rio Jundiaí –Taiacupeba, ganhou o reforço do novo açude do Paraitinga, concluído em 2005. Porém, se aos olhos dos meros mortais tudo estava resolvido, para os técnicos do assunto, os estudos meteorológicos - por ironia - feitos na própria estação local, alertava sobre o possível baixo índice pluviométrico. Há anos que as chuvas não são suficientes para manter os  reservatórios e, sendo uma dos açudes que alimenta a capital, Ponte Nova soma-se às demais que estão interligadas nessa missão. Todavia, nos últimos meses, o que se vê é mais lama e racionamentos. Bastou uma estiagem mais longa e a poderosa Ponte Nova perdeu seu potencial.
Polêmica desde a sua conclusão, muito se falou sobre o valor injusto pago pela desapropriação das áreas que foram inundadas e das dificuldades que os residentes da região dos bairros Tietê Acima, Aparecida e Contenda enfrentaram para se locomover até Salesópolis, centro comercial mais próximo. Mesmo com a construção do aterrado que facilitou o contato cidade -bairros trouxe solução definitiva à questão. Vez por outra, arrombamentos por fadiga do dique trouxe prejuízo à ambos. Em 2014, por exemplo, sem maiores esclarecimentos, a justiça decretou o seu fechamento - o que demonstrou ser uma manobra política- motivo: com a mesma facilidade com que foi fechado, foi reaberto e, cada vez mais, mal acabado.   
No momento, o que mais preocupa é a falta de água. Por um capricho do clima, as chuvas que comumente caem nas cabeceiras do Tietê e região mudaram seu destino. Com menos volume estocado, vemos a matéria prima para a manutenção da vida se extinguir. Com as precipitações cada vez menores, o conjunto de represas se vem com menor volume acumulado da última década. Por isso, no domingo, dia 11, fiz uma excursão em busca do que resta do reservatório local.   
O Tietê no aterrado.
Chegando ao aterrado, vê-se o imenso vale que está exposto. As terras que foram reivindicadas pelos antigos donos mostram as suas antigas belezas. Típicas de todo brejo, as ervas de bicho despontam entre outras variedades que forram as várzeas. Depois da seca, o poderoso Tietê não passa de um ribeiro*. Seu leito sinuoso ainda persiste e, na medida em que vai descendo vale abaixo, vai recebendo as pequenas lâminas d’água vindas das grotas, de cada lado do vale.
Leito da antiga estrada.
A velha ponte.
Do lado esquerdo, as ruínas da primeira estrada que interligava todo o Vale do Tietê estão expostas. Calçada de pedra nas partes úmidas comportavam os carros de boi, charretes e pequenos veículos motorizados, já que os automotores só chegariam anos mais tarde. Logo abaixo, uma das antigas ligações viárias unindo ambos os lados do rio é vista. A velha ponte ainda mantém a sua postura, simples, mas com as madeiras que há meio século suportava os as variadas cargas que por ali era transportada. Descendo um pouco mais, há vestígios de pequenas trilhas que se formaram com a inundação do leito.  Por entre as ilhas temporárias, já nas proximidades do paredão, mais um estreito caminho por onde passava muares e pedestres está à mostra. Outra indescritível realidade é vista onde havia o grande alagado que se estendia entre o “Toboganzinho” e o Tobogã. A antiga via que conduzia os salesopolenses à outras cidades está exposta atrás da grande ilha indo ao encontro do Rio Claro e região. A prova de que a situação é critica está na lama e os princípios de pastagens que reaparecem por toda a extensão. Outro indicador de que a reserva está no fim são as cepas visíveis sobre a água que resistiram as décadas submersas. É uma sensação única. Poder ver o Rio Tietê em sua extensão, por toda a represa; não só ele como os seus afluentes – grandes e pequenos-, é um sonho; contudo, ao considerar a necessidade com que a população passa pela falta desse líquido, torna-se numa trágica realidade.
Obstáculo entre o Rio Tietê e a lagoa.
Além dos problemas causados pela estiagem, outro grande desastre ecológico está acontecendo. Quase invisível diante de todos, chegou a época da piracema, tempo em que os cardumes nadam em busca das nascentes para procriarem, e o que se vê em todas as represas é uma calamidade. Após horas de nado rio acima, são presas fáceis das aves ribeirinhas que os esperam nas margens dos riachos, afluentes e nas lagoas. Aqueles que sobrevivem às predadoras, quando não caem nas redes ou armadilhas dos pescadores, são detidos pelas rochas no início do Rio Claro, pelo Tobogã e Toboganzinho ou pela bica d’água que separa o lago na cabeceira da barragem e o paredão da Cachoeira dos Freires, na usina hidrelétrica. E como a reserva aquática vem se extinguindo de forma gradativa, vai passar o período da desova e não haverá água e nem local apropriado para os variados cardumes –nativos e adaptados- procriarem.
Lago na camada superior de Ponte Nova.
Mesmo tendo esse fim anunciado em virtude da falta da chuva, já se espalha pela redondeza de que a Sabesp/DAEE irão drenar aquele grande lago que se mantém acima do aterrado, devido ao desnível geográfico. Ou seja, na busca por uma solução passageira – as precipitações se aproximam e o conteúdo daquela lagoa será um paliativo -, poderá destruir muitos alevinos e ovas que estão sendo depositadas nas matas ciliares, visto que aquela reserva é uma sequencia da represa e mantém em seu leito ampla quantidade e variedade de peixes.  
Fase final tendo o paredão ao fundo
Em meio a todos esses percalços, a esperança continua. A metrópole clama por água, os veranistas lamentam a sua falta para o seu lazer; os peixes e a vida aquática da cadeia alimentar ali baseada vão sendo dizimados com calor recorde e um paradoxo se completa: O mesmo povo paulistano que almejava a construção de açudes nas cabeceiras dos grandes rios para deter suas enchentes, hoje espera por um milagre e que os mesmos ribeiros se avolumem e com as futuras enchentes os acudam em suas necessidades.

   

 Fotos: Ciro do Valle.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Bambolê.

O gênio idealizou a elipse planetária, (Kepler).
Baseando-se nela, o observador criou o bambolê;
e o homem comum, “bamboleia”.


Senador Roberto Caxias, Cidadão Salesopolense.

Carlos Vereza como o Senador Caxias.
No final dos anos noventa, do século passado, os camaristas salesopolenses aprovaram uma decisão no mínimo questionável. Na época, a Rede Globo de Televisão exibia, pela primeira vez, a novela Rei do Gado - entre 17/06/1996 - 14/02/1997-, que, por ser um folhetim caracterizado no meio rural, caiu bem no gosto popular; no entanto, o que chamou a atenção de alguns edis foi o personagem Senador Roberto Caxias, vivido pelo ator Carlos Vereza, por sua postura digna e sua conduta ilibada. Outro fato que auxiliou nessa decisão ocorria numa cidade vizinha. Lá, entre outras coisas, falava-se em nomear logradouros como: Av. Roberto Carlos Braga, Praça Ronnie Von, etc. Nesse embalo, os legisladores daqui se reuniram, propuseram e, seguindo todos os trâmites necessários, concederam o Título de Cidadão Salesopolense ao personagem fictício. Por sua vez, os outorgantes sonhavam ver Salesópolis, em horário nobre, sendo o cenário de um "drama global".  Esperavam, também, o reconhecimento público, pois aspiravam ver o município se tornar Estância Turística (o que ocorreu em 2001).

Mas como nem tudo é glamour, assim que a decisão camarista caiu em conhecimento público, veio o descontentamento. Um município conceder tamanha honraria à um personagem de novela... e os verdadeiros, ilustres e dignos de tanto esforço? Outro fato preponderante foi a impossibilidade de alterar um projeto milionário que é uma novela. Resumindo: o sonho virou um pesadelo. Sem alternativa, uma nova mesa diretora se formou no fim daquele ano e, no inicio do novo mandato, o novo presidente, "no dia 17 de janeiro de 1997, em Sessão Extraordinária, os vereadores (presentes) votaram, aprovaram a cassação  do título de "Cidadão Salesopolense" ao personagem do Senador Caxias, interpretado por Carlos Vereza na novela "Rei do Gado". *

Mais uma vez a Rede Globo voltou a reprisar a mesma novela e alguns daqueles vereadores continuam na Câmara. Será que virão novas homenagens? 

Foto. fot.arley_alves. google.
* Jornal A Notícia, edição n.º 01 de 1997.