quarta-feira, 8 de março de 2017

Capacete Rosa.

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Muitos hábitos perdem-se no tempo, mas há aqueles que se aperfeiçoam e atravessam os anos.
A motocicleta e similares, desde a sua invenção, inspiraram liberdade. No pós-guerra a sua difusão foi ampla, mas era um meio de transporte caro e perigoso. Nos anos seguintes, os hippies a coloriram, “envenenaram-na", porém, sempre em poder dos homens.
A globalização, por sua vez, trouxe muitas divergências; contudo, popularizou esse meio de condução. Hoje, produzida em larga escala, seu custo caiu e - paralelo à liberdade em que a juventude conquistou - ganhou as ruas, seja por necessidade, casualidade ou puro prazer.
Nesse embalo, o terceiro milênio veio consolidar uma prática quase desapercebida que, lentamente, foi ganhando espaço na sociedade. Sempre agarradinha igual a "parasitas" na garupa de seus companheiros, as mulheres davam charme e trazia ao cavalheiro status social. Com o semblante tradicionalmente passivo, esbanjava sensualidade trocando os sonhos pelo cheiro de asfalto; todavia, eram poucas que se aventuravam nessa peripécia. O pó da estrada, na visão conservadora, difamava a conduta das moçoilas, sendo, portanto, um número reduzido delas -quase sempre junto com o namorado - que se arriscavam nesse vôo sobre duas rodas.
Mas o avanço dos costumes as vem colocando em lugar de destaque. Impondo-se sobre a conhecida postura machista, estão dominando as ruas, parques e cidades. Independente do lado agressivo das ruas, as vaidades continuam em alta. Altas, baixas, não importa: há equipamentos com várias cilindradas conforme o tamanho da proprietária. Os destaques começam pelos pés. Não comportando salto alto, na falta das sapatilhas, as unhas vermelhas se expõem em frente a sandálias sugerindo tatuagem temporária na extensão das pernas que, sendo "toras", curtas ou longas, despem-se mediante qualquer aragem. É frio, um jeans apertado dá um jeito, cobrindo, torneando e expondo os contornos insinuantes.
O corpo é outro aparato. Quando o calor impera, a blusa "tomara que caia” ou não, tem o hábito de subir costa acima enquanto o cós das calças, rebaixados, abrem um espaço entre o cóccix, as vértebras e os simpáticos pneuzinhos. Um pequeno mural ali se forma e cavalos marinhos, rosas, borboletas, enguias, estrelas e tudo o que a imaginação sugere, em oposição aos piercing reluzentes que, às vezes, se apoderam do umbigo.
As "cheinhas" enfrentam as "saradas" com naturalidade. Há aquelas que exibem seus decotes, com seios opulentos... A cabeleira, quando farta, faz deslizar-se pelos ombros suados, em rabo de cavalo ou solto ao vento, como na era psicodélica, do pé na estrada, da power flower... Por fim, contrastando com o carmim do batom, um capacete personalizado, rosa, envolve a cabeça.
Se por um lado, perdem-se os ares de sedução, por outro se ganha o companheirismo; sai a fêmea sedutora, entra a parceira ativa; a donzela dá lugar para a guerreira, à amazona moderna, independente, na corrida diária.
O cavalo branco, símbolo dos sonhos juvenis, deu lugar a máquinas prateadas, rosnantes, fumegantes, que obedecem, nervosas ao comando.
Em seu contexto diário, novos elementos ganham espaço. Além da concorrência acirrada entre elas, os sonhos, a aspiração pessoal, os encargos típicos do sexo alteram a sua rotina preocupando-se com pneus desgastados, combustíveis, semáforos, faixa de pedestres, os riscos do trânsito; novos fatos que povoam o universo feminino, substituindo os delírios românticos pela praticidade da vida.
Antes era como "parasita"; hoje, em formato de "conchinha" envolve seu parceiro e, juntos, vão ao encontro da liberdade.
Passo a passo, aquelas que deixaram o véu da ingenuidade perdido  pelas curvas sinuosas da adolescência vão assumindo os caminhos que a natureza lhes concede. São ou serão as modernas "senhoras" que José de Alencar nunca pensou descrever.


Ciro do Valle, 2009.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Perigo na Rua Armindo Soares de Campos.

A Rua Armindo Soares de Campos, mais conhecida como Estrada da Barra, apresenta nos seus primeiros quilômetros trechos encharcados e de difícil transposição.
Os pontos críticos estão nos primeiros 100 metros; na altura dos 800 metros e, lá no alto, próximo à torre de telefonia.
Dos trechos prejudicados, o primeiro deles oferece maior risco. Por ser uma via moldada em formato íngreme e tortuoso, após varias campanhas e algumas iniciativas visando o seu melhoramento, nas vésperas da eleição passada, seus duzentos metros iniciais foram preparados para a colocação de asfalto - reivindicação antiga já que o perímetro urbano vigente se estende até a altura do número 500.
A benfeitoria não se concretizou, mas a rampas que eram protegidas pelas raízes e a formação vegetal nativa, ficaram com o solo altamente erosivo exposto e em decomposição. As primeiras barreiras já vieram abaixo.
Além da lama que se espalhou e pode voltar a tomar aquela área, um pouco mais acima – 130 metros aproximadamente-, há fragmentos de rochas presas no barranco e a enxurrada começa a provocar os primeiros desmoronamentos. Se persistir o que ali ocorre e aquelas rochas caírem na estrada, devido ao seu porte, podem interromper o tráfico de veículos no sentido Barra; pode, ainda, atravessá-la indo parar no rio Paraitinga; e, no pior das hipóteses, rolar no sentido cidade e acertar alguma residência locada nos primeiros metros da citada rua, ou a transeuntes e/ou carros que estejam fazendo aquele trajeto.

Portanto, é um trecho que merece atenção, principalmente à noite, e se persistirem as chuvas!


Fotos: snascimento.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Na idade do lobo. (Geração boca de sino)

fundosanimais.com (google)
 O futuro chegou. Após anos de aprendizados, chegar aos quarenta, cinquenta, sessenta anos significa apossar-se da melhor fase da vida. Muitos intelectuais concordam com essa afirmação e têm lá suas razões. Não se trata de uma postura que todos tenham que assumir; outros fatores – biológico, emocional, educacional, religioso, classe social – interferem antecipando ou retardando essa conquista. Com uma expectativa de vida em torno dos setenta anos, no Brasil, atingir esse limite significa estar avançando para o fim de uma estrada desconhecida, mas necessária. O certo é que o homem ou a mulher, quando atingem esse patamar mostram-se mais tranquilos. Todos os “quarentões” ou “quarentonas” já superaram provações que lhes deram experiências. É um caminho sem volta. Mas nem tudo é tristeza. Atingir a maturidade é uma conquista. Todos os lobos, quando adultos, conhecem o terreno por onde pisam; são senhores dos pormenores das coisas boas da vida. Como já dispõem de um papel definido na sociedade, sabem que agora já não há espaços para sonhos e sim para a realidade. Ciente de que a vida já definha, as lutas são direcionadas para os mais belos ideais. Há, no entanto, o lado triste da história. Nessa etapa o organismo cobra os efeitos das tardes ensolarada da adolescência, da cuba libre, das noites da Disco, das experiências com as drogas leves, da exagerada busca pela vida sexual limitada pelo avanço das DSTs no final do século passado. Outra ducha de água fria que cai sobre os homens é o câncer na próstata.
As dificuldades orgânicas femininas são superadas. Elas, desde cedo, são obrigadas a se exporem aos cuidados médicos; portanto, na chegada da menopausa, suas conseqüências são menos dramáticas. Ao contrário, os homens enfrentam outra dura prova. Por terem sido criados nos hábitos severos do machismo, o preconceito de se expor ao desafio do toque retal os atormenta. Uma ampla campanha esclarecedora vem sendo feita para que eles entendam a necessidade da prevenção. Não contido em tempo, o câncer é uma moléstia que causa muito sofrimento ao paciente e aos familiares. Logo, prevenir é poupar dores e transtornos; isso, sem falar na probabilidade maior de óbito prematuro. Sensato é todo aquele que estiver entrando nessa faixa etária, deixar se levar pelos benefícios da prevenção e partir em busca da cura desse sintoma que, quando agravado, oferece resistência. O toque retal masculino, hoje, é um ato de superação e, acima de tudo, de sabedoria.

Geração Boca de Sino
foto- 180graus.com (google)
No linguajar da adolescência "setentista"(gíria dos anos setenta) seria mais ou menos assim: Pô, pra que ficar “encucado”, irmão; para quem já teve uma “cuca legal”, “ser ou não ser” é melhor “tar por cima”. Todo “pão” tem que “dar um rolê” e levar “um léro” com sua “pantera”; com um “papo legal” e sem “caretice”, falar com ela das suas ansiedades. Nada é tão “chocante”.” Contando com o apoio da “gata” tudo vai ficar “às pampas”! “Bicho”, não vai “dar bóde”! Todo doutor é profissional e cada diagnóstico é apenas mais um no consultório dele. “Podes crer amizade", tudo vai ficar “numa boa”; então, “qualé o grilo”? É um “grande barato” “tar ligado” na saúde, "sacô"!. É hora de se deixar “fazer a cabeça”. Saia do “sufoco” e antes que a coisa fique “russa, podes crer que a galera tá contigo e não abre”. “Se liga” no vai e vem das ruas. O estilo Boca de Sino e temas ligados à moda da época estão de volta. Veja quanta “tigreza” expondo o umbiguinho, a “barriguinha” sexy, valorizando as camisetas, os cabelos soltos e com barras de quarenta centímetros montada num “plataforma”. É "isso aí"! “Não fique só na sua, caia na estrada” e procure “curtir a vida’.“É legal” “tar por dentro” das novidades. Como a moda, os hábitos foram revistos, é hora de voltar no tempo; e, sem ser “patrulhado”, "sair por aí". Ainda há muito para se viver daquela “paz e amor” que se pregava na juventude, falô”!.

Na idade do Lobo. (Geração Boca de Sino)  março de 2005- Jornal A Notícia de Salesópolis.

sábado, 15 de outubro de 2016

O telão

 (À todos aqueles que se dedicam (ou dedicaram) à difícil arte de educar e a fazem - ou fizeram - com responsabilidade).
Uma tela na parede; muda e sem vida.
O auditório também era pequeno, muitas vezes, grande para um número de pessoas que vinham ocupar seu espaço. Não que houvesse restrição, mas pela falta de interesse ou de tempo e tantas coisas banais que contribuíram para que uma quantidade reduzida de indivíduos se propusesse a assistir, a ouvir e entender os sons emitidos durante qualquer imagem.
A tela inerte, que estava muda, ao toque humano e pela ação do giz ganhava vida. Nela, surgiam gráficos, mapas, palavras exóticas, coisas do passado; Roma de Júlio César, Grécia de Pitágoras, antigo Egito.
Os operadores se renovavam, o telão se tornava mágico indo além do auditório. Influenciava a vida nas ruas, nos casebres, nas mansões; chegava ao dia-a-dia e avançava para o futuro levando consigo os expectadores a tomarem novos rumos em suas vidas.
Por trás da calma rotina, evidenciavam-se os artigos científicos; o átomo; as combinações dos elementos; as relações humanas; o avanço espacial; as descobertas de Colombo; o mundo atual; as chances de cada continente; a probabilidade dos ataques nucleares; os avanços científicos; as novas moléstias; os antídotos; do “bê-á-bá” à física quântica; frutos dos anos de faculdades eram expostos de forma ininterrupta.
O mundo e suas situação geográfica; a vida de um modo geral; a localização dos povos; os regimes aos quais eram submetidos; os abusos antinaturais cometidos pelo homem e as suas consequências; os desertos, as savanas, mares e animais em extinção.
A arte de adicionar recursos, multiplicar esforços, subtrair egoísmo e dividir as responsabilidades.
Nos intervalos, cenas de amor, imagens de sonhos e fantasias; a euforia da idade das espinhas, do “selinho” escondido; uma gaivota a voar, a onda a invadir a praia...
No epílogo, os países em conflitos; a morte pela fome, as perseguições e a marginalização; ao fundo, um cenário azul escurecido pelas fumaças vindas do progresso.
O objetivo de tanto esforço, era dar às crianças condições de vencerem as provações do cotidiano. Com o passar do tempo, os meninos cresceram e foram emoldurando seus dias nas informações que aprenderam nas aulas e no convívio com os demais amigos. Adultos, estão colhendo os frutos da aplicação das horas dedicadas ao aprendizado.
Quanto aos mestres, muitos caíram no esquecimento. O passar dos anos, os levaram por caminhos alheios as suas vontades. Questões políticas, cartéis, nortearam seus destinos em busca de seus objetivos.
Neste quinze de outubro, é a oportunidade de rendermos  homenagens aos nossos professores. Pessoas que abraçaram a dura arte de ensinar e a fizeram com esmero. Aqueles que nos acolheram numa época em que nos perdíamos em ideias, e fizeram da nossa formação o seu ideal.
Foto: publicdomainvectors.org (google)




sábado, 1 de outubro de 2016

Pastores e lobos.

Um homem e seu cajado. Essa é a figura tradicional do pastor. Tem a responsabilidade é zelar pelo seu rebanho. Sua missão é cuidar pela integridade do grupo; salvá-lo dos ataques dos predadores, socorrer as fêmeas nos partos, sanar os feridos, levá-lo ao córrego para saciar a sede, garantir-lhe, enfim, segurança em pastagens abundantes. Mas, para isso, constrói-se cerca de arame farpado para impedir a fuga dos seus protegidos. Vivem presos: pastores e carneiros
obramaranata.wordpress.com 2011
em seu aprisco e obrigados a conviverem uns com os outros.

Tal qual uma manada, os homens também são obrigados a se inclinarem perante líderes que se dizem zelosos pela sua felicidade. As necessidades são parecidas. Humanos dependem de espaços, liberdades, aprendizados; de alguém que cuide de suas chagas, que lhes proporcionem alimentos de boa qualidade. Contudo, para o cargo de dirigente deve-se ter sobriedade, ser respeitado por sua conduta, ter bom diálogo e índole incontestável. Ele tem que conhecer as necessidades de seus conduzidos e, juntos, buscarem o bem comum. A realidade, entretanto, mostra-se contraditória. O rebanho humano há muito vive disperso. Isso os tornou preconceituosos, marginalizados, gananciosos. Por serem mal administrados, se apegam aos subornos, ignoram o óbvio e se proclamam autossuficientes. Na verdade, comem na mão de falsos condutores e rezam para que amanhã seja um novo dia...
O pastoreiro, se a ovelha é arredia, amarra-lhe as pernas, fere no focinho, mete-lhe canga para que não fuja. Quanto às pacíficas, rouba-lhes o leite, a lã e as crias.
Os líderes humanos, com as omissões evidentes, permitem que os apriscos duelem entre si criando facções ideológicas, chantagens e latrocínios. Dos que sobrevivem, sangram-lhes os bolsos com propinas, impostos e taxas exorbitantes. Negam-lhes a cultura e os mantêm acuados, sem empregos, sem destino e confinados na vala do subdesenvolvimento...

Típico de todo pastor, o qual cuida do seu rebanho não lhe visando a felicidade, mas tão somente a tosquia e o abate!


domingo, 25 de setembro de 2016

Ares- Associação dos Recicladores de Salesópolis

                                     

Em 2003, um grupo de jovens do Distrito Nossa Senhora dos Remédios, pretendia fazer uma viagem e, diante da falta de dinheiro, viram na coleta de materiais recicláveis uma alternativa para atingir seu objetivo.
Em seguida, perceberam que isso poderia gerar ocupação e renda; depois de várias reuniões, decidiram constituir uma cooperativa.
No ano seguinte, embora precariamente, o Grupo de Recicladores estava ativo e conseguiram com a Prefeitura Municipal a cessão de um espaço para a instalação e armazenagem dos materiais recicláveis coletados.
Assim, em 2005, foi fundada a A.R.E.S.-Associação dos Recicladores de Salesópolis Graças à parceria com Prefeitura Municipal, Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Rede Cata Sampa e M.N.C.R, a ARES já soma algumas importantes conquistas como: Aquisição de veículos e de equipamentos, além de cursos de capacitação.
Fardos de Pet
A ARES - Associação dos Recicladores de Salesópolis, é parceira da Prefeitura da Estância Turística de Salesópolis na coleta seletiva, que desempenha trabalho de grande importância ao município, diminuindo o impacto ambiental e reduzindo o volume de lixo depositado em aterro sanitário e envolve diretamente 18 associados.
Em 2016, em plena atividade e com potencial para crescer e se desenvolver, a ARES depende do maior envolvimento de toda a população salesopolense, pois atinge uma parcela ainda pequena de doadores.
Você também pode ajudar!
Você é um agente fundamental para essa mudança!
Separe e doe os materiais recicláveis de sua casa, trabalho ou escola.

O que é reciclável?
Plástico: tampas, potes, frascos, garrafas Pet, PVC, tubos e conexões, brinquedos quebrados, baldes, sacos, etc...
Papel: jornais, revistas, papelão, lista telefônica, envelopes, embalagens incluindo Longa Vida, cartolinas, sulfites e impressos em geral.
Fardos de PET
Vidros: Potes, garrafas, garrafões entre outros.
Metal: Alumínio, latas, fios, sucatas de ferro etc...
Informática- CPUs, monitores, impressoras, cartuchos;
Eletrodomésticos, geladeiras, ferros, fornos, fogões;
Resíduos de óleos de cozinha, etc..

O que não é recolhido nas coletas:
Restos de comidas, cascas, lenços, guardanapos de papel, papel higiênico, fraldas, acrílicos, espelhos, cerâmicas, porcelanas, madeiras etc...

Os resíduos eletrônicos como pilhas, baterias, lâmpadas e medicamentos vencidos devem ser entregues em postos autorizados.
Atualmente, a ARES realiza a coleta seletiva solidária porta-a-porta em 16 bairros de Salesópolis e no Distrito Nossa Senhora dos Remédios; nas escolas municipais e estaduais; comércios e residências. São produzidas, mensalmente, cerca de 60 toneladas de materiais recicláveis que são destinados às indústrias recicladoras da região.
PRA QUE PAGAR PRA ATERRAR, SE NÓS PODEMOS RECICLAR?
PARTICIPE! COLABORE!
Reciclar é REDUZIR, REUTILIZAR, ATUALIZAR...
Janayna de Souza Silva. Coordenadora
Tel: 9974-6581 4696-4479

e-mail:arescoletaseletiva@yahoo.com.br

fotos: Ares e snascimento


sábado, 13 de agosto de 2016

Sol Poente.

     "Ser idoso não é um desejo ou um castigo, mas uma condição imposta pela Natureza a todos os seres vivos que habitam sobre a terra".

Sol se pondo na Serra da Mantiqueira.
   Vinda do nada uma pomba aparece, voa entre as árvores e pousa na praça. Com seu andar entrecortado, sua atenção é para os restos deixados na grama. O lugar é conhecido e nada a amedronta: nem os cães, os gatos ou as pessoas que ali frequentam. Ela é alvo de atenções diárias.
   Como aquela pomba, seus admiradores também já voaram pelos quatros cantos do mundo em sonhos, conheceram a solidão, as guerras e as transformações da humanidade que, como o mar, é inquieta num vai e vem constante. Fizeram famílias, lançaram suas sementes ao vento. Algumas vingaram, outras se perderam entre as “ervas” daninhas. Sofreram perseguições e seus credos os decepcionaram. Tudo ruiu com a revolução dos hábitos. Tantas verdades eles defenderam e viram cair por terra os seus ideais. A modernidade avançou de forma desenfreada. A sabedoria era como um conta-gotas que, aos poucos, ia pingando sobre as mentes ilustres. De uma hora pra outra, transformou-se num jato que inunda os povos.
   Leais defensores de Getúlio ainda guardam aquela notinha de dez cruzeiros, desvalorizada, onde estampa a imagem do imponente gaúcho, além do quadro exposto na sala de estar.
    Os militares se renderam ao clamor da liberdade, mas os libertos não entenderam o significado dessa conquista. Com isso, os idosos estão perdendo na guerra da competição.
   Omitem-se quando o assunto é polêmico; ignoram se o tema é sobre laqueadura ou vasectomia. A cesariana ainda os convenceu porque a juventude é cheia de manias e comodismo. Rejeitaram os anticoncepcionais e os preservativos: tinha que ser ao natural e de luz apagada; se a viagem era íntima, o escuro favorecia o tato trazendo um clima de suavidade e segredo. Já não há tantos partos caseiros como outrora; “a mãe do corpo” tem nome próprio; o “mal dos sete dias” está controlado e as mulheres estão menos “criadeiras”...
   Dos feitos da infância pouco se lembram. O futuro é, e sempre será, uma incógnita. Tantos anos se foram. Quanta luta?... Com o declínio da libido, os ânimos se acalmaram porque há menos agressividades e as lembranças dos maus momentos foram superadas. O tempo, agora, é de confraternização, de rever as coisas simples: o café com leite trazido direto do curral; ovos vindos do ninho, a broa assada no fogão a lenha, a linguiça e o toucinho pendurados no “fumeiro”, apanhar jabuticaba uma a uma, ouvir Noel Rosa num disco de 78 RPM ou Nelson Gonçalves e seus momentos mais inspirados.
   Há momentos de tristezas quando se lembram das pessoas que foram dizimadas pelas moléstias, da fome e da miséria que assolam oo mundo. Mas o conselho dos anos tem mostrado que tudo o que é bom ou ruim acaba passando. Assim, a viroses, como toda a moléstia, um dia vai passar. Um dos poucos fatos que talvez não vá tão cedo são as lembranças dos momentos em que deixaram de seguir as ordens do coração.
Quem já provou de tantos vinhos e se embriagou de fel, merece um tempo. É hora de rever os planos, de ficar a toa; de contemplar sua obra, relembrar dos velhos amigos e suas fantasias. O mesmo sol de tantos anos ainda brilha no firmamento. A lua, fiel confidente de seus devaneios, enfeita a noite estrelada. Não importa se com passos lentos, semblantes cansados... A chama da vida mantém-se acesa; então, alegrem-se! Ser idoso não é um desejo ou um castigo, mas uma condição imposta pela Natureza a todos os seres vivos que habitam sobre a terra. Revejam suas roupas alegres, seus ternos de linho e abusem das alegrias. A sua contribuição física para o mundo, nesta vida, está concluída. E, como o oceano não se julga pelas marés ou pelas ressacas, assim como a árvores são consideradas pelos frutos que produzem; também os homens são alvo de júri, não pelo nascer ou pelo limiar dos anos, mas, pelo bem ou mal que protagonizaram nessa vida. Aos demais cidadãos, cabe a responsabilidade de providenciar meios que deem à sábia idade, o direito de envelhecer em paz.

   Alheia às conclusões dos transeuntes, aquela pomba andarilha permanece na praça. Entretanto, todos sabem que a qualquer momento ela alçará voo, fará seu verão e partirá ...para sempre!

A Joaquim T. Nascimento, meu pai e meu melhor amigo, *1924  + 2005..